Cúrcuma: os Suplementos em Cápsulas Podem Acarretar Riscos Hepáticos, Alerta a Anvisa
A cúrcuma, um tempero ancestralmente valorizado por suas propriedades e seu papel na culinária, vem ganhando destaque nos últimos anos devido às suas características anti-inflamatórias e antioxidantes, impulsionando seu consumo em formato de suplementos. No entanto, essa popularização tem gerado preocupações. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recentemente divulgou um alerta sobre os possíveis efeitos adversos, incluindo inflamações e danos hepáticos, associados à ingestão de medicamentos e suplementos que contêm o composto. Essa medida visa conscientizar a população sobre os perigos do uso indiscriminado, especialmente quando se trata de extratos concentrados, que podem intensificar a absorção da curcumina, a substância ativa da cúrcuma, potencialmente sobrecarregando o fígado. Diferentemente do uso culinário, que é considerado seguro, a versão concentrada exige cautela e supervisão médica.
A decisão da Anvisa fundamenta-se em estudos e relatos internacionais que identificaram incidentes graves, embora ainda incomuns, relacionados principalmente à ingestão de cápsulas e extratos de cúrcuma com alta concentração. A preocupação central reside na curcumina, o ingrediente ativo que confere à cúrcuma suas propriedades benéficas. Embora em sua forma natural, presente na alimentação, a curcumina seja pouco absorvida pelo organismo, os suplementos são desenvolvidos para aumentar drasticamente essa biodisponibilidade. Isso é frequentemente alcançado pela adição de piperina, um composto encontrado na pimenta-do-reino, que pode elevar a absorção da curcumina em até 20 vezes, ou por meio de outras formulações farmacológicas. O hepatologista Luis Edmundo Pinto da Fonseca, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explica que essa maior absorção pode levar a um aumento significativo da substância no fígado, resultando em lesões hepáticas, incluindo surtos de hepatite aguda, como já observado na Europa.
A gravidade da inflamação hepática varia de casos leves, que se resolvem com a interrupção do suplemento, a situações mais severas, que podem exigir transplante de fígado ou até serem fatais. Além disso, a resposta individual à curcumina não é uniforme, sendo influenciada por fatores como predisposição genética e interações com outros medicamentos ou suplementos. Essas interações podem afetar a maneira como o fígado processa a curcumina, aumentando o risco de toxicidade. Dessa forma, enquanto a cúrcuma em seu formato de tempero permanece inofensiva e benéfica, a sua versão em suplemento, devido à sua maior concentração e biodisponibilidade, exige atenção e, idealmente, acompanhamento profissional.
Ainda que existam estudos sobre os potenciais benefícios da curcumina, muitas de suas vantagens terapêuticas ainda carecem de comprovação científica robusta. O paradoxo é que, embora a curcumina na alimentação seja segura, seus efeitos benéficos são limitados pela baixa absorção. Por outro lado, o aumento da absorção em suplementos, que poderia intensificar seus efeitos terapêuticos, também eleva o risco de efeitos adversos. Por essa razão, a recomendação é priorizar a orientação médica antes de iniciar o uso de qualquer suplemento concentrado de cúrcuma. A Anvisa sugere a realização periódica de exames de sangue para quem faz uso desses produtos, a fim de detectar precocemente qualquer sinal de toxicidade hepática e permitir a suspensão imediata do tratamento, caso necessário. Enquanto a pesquisa avança para estabelecer doses seguras e eficazes, e identificar grupos mais suscetíveis, a precaução é essencial para garantir a saúde do consumidor.
