“Descontrole”: Uma Análise Profunda do Alcoolismo e da Dependência Tecnológica no Cinema Brasileiro
A produção cinematográfica recente, “(Des)controle”, mergulha nas complexas realidades do alcoolismo e da dependência tecnológica, através da narrativa de Kátia Klein, uma autora de literatura infantojuvenil. O filme, que tem a atriz Carolina Dieckmann no papel principal, traça a jornada de Kátia enquanto ela lida com a negação de seu vício em álcool e as consequências devastadoras que isso acarreta em sua vida pessoal e familiar. Além de abordar o alcoolismo, a trama expande-se para discutir a dependência tecnológica, um problema contemporâneo crescente. A obra se propõe a ser mais do que entretenimento, funcionando como um espelho para a sociedade, encorajando a reflexão e oferecendo perspectivas sobre como enfrentar esses desafios, sublinhando a relevância do suporte e do tratamento psicológico para a superação desses vícios.
Um Olhar Detalhado sobre Vícios e Recuperação na Tela Grande
Na quinta-feira, dia 5, o filme “(Des)controle)” fez sua estreia, apresentando ao público a escritora Kátia Klein, interpretada por Carolina Dieckmann, que, ao longo de 97 minutos, reiteradamente proclama sua sobriedade de quinze anos. No entanto, sua jornada revela uma luta interna contra a negação, conforme desvendado em uma reunião dos Alcoólicos Anônimos (AA). A psicóloga Rachel Barbosa, diretora da Associação Alcoolismo Feminino (AF), explica que a negação é um mecanismo de defesa, e Kátia, ao enfrentar uma recaída, minimiza a situação, exemplificando a dificuldade em admitir a perda de controle.
A inspiração para o filme veio da produtora Iafa Britz, também responsável pela aclamada trilogia “Minha Mãe É Uma Peça”. Britz revelou que a ideia surgiu de uma experiência pessoal durante a pandemia, mas enfatizou que a obra não é autobiográfica. Ela ressaltou a importância de abordar questões sociais como o alcoolismo através do cinema, visto que muitas pessoas sofrem em silêncio por medo ou vergonha. Antes das filmagens, uma sessão virtual do AA foi organizada para a equipe e o elenco, e surpreendentemente, alguns membros buscaram ajuda após a experiência. A diretora e roteirista Rosane Svartman acredita que o filme, além de divertir e emocionar, tem o poder de fazer a sociedade refletir e oferecer meios para superar vícios.
No longa, Carolina Dieckmann desdobra-se em duas personas: Kátia e Vânia, sua versão alcoolizada. A atriz descreve Vânia como uma faceta irreconhecível de Kátia, uma mãe que seu próprio filho não reconhece. Para construir a personagem, Dieckmann imergiu em pesquisas, participando de reuniões e trabalhando com uma preparadora corporal para evitar caricaturas. A trama mostra Kátia em situações de extremo descontrole, como esquecer objetos em lugares inusitados, esconder garrafas, engravidar sem saber a paternidade e, perigosamente, colocar a vida de seus filhos em risco. Júlia Rabello, que interpreta Leo, a melhor amiga de Kátia, enfatiza que o alcoolismo afeta não apenas o indivíduo, mas todo o seu círculo social, destacando a existência de grupos de apoio para amigos e familiares.
Além do alcoolismo, “(Des)controle” aborda a dependência tecnológica. Kátia é vista utilizando o celular incessantemente, até mesmo em momentos íntimos com o marido. A diretora Carol Minêm, de forma bem-humorada, comenta sobre a dificuldade de se desconectar. A psicóloga Cláudia Leiria, cofundadora da Associação Alcoolismo Feminino, discute os “gatilhos” que podem levar a recaídas. Ela explica que esses gatilhos, sejam emocionais positivos ou negativos, problemas físicos, hábitos ou pressão social, são únicos para cada indivíduo em recuperação. Leiria tranquiliza que o tratamento psicoterápico é fundamental para identificar e gerenciar esses gatilhos, permitindo que os pacientes desenvolvam estratégias de enfrentamento e evitem recaídas, mesmo ao se depararem com temas desafiadores como os explorados no filme.
A obra “Descontrole” se posiciona como um espelho da contemporaneidade, convidando à reflexão sobre as múltiplas facetas do vício. A narrativa, que se desdobra entre a luta pessoal contra o alcoolismo e a crescente dependência tecnológica, ressalta a complexidade dessas condições e a importância de um olhar mais empático e compreensivo por parte da sociedade. Através da arte, o filme não apenas expõe feridas, mas também aponta caminhos para a cura, reforçando a ideia de que o reconhecimento do problema e a busca por ajuda são os primeiros e mais cruciais passos para a recuperação. É uma poderosa lembrança de que o apoio mútuo e a compreensão profissional são essenciais para transformar a negação em esperança e o descontrole em superação.
